1989


Gisela dos Abrolhos,
quem soube decifrar-te
ao ver como seus olhos
corriam pelo encarte?

Ao ver como escolhos
os versos à la carte –
Gisela, pra seus olhos
era a arte pela a arte?

Erraste pelos portos
citando algum Pessoa,
com seus scarpins tortos
em forma de canoa,

seguida pelos mortos
pedestres da Lagoa,
Gisela Desconfortos,
sapatos não tem proa...

*

Dançavas com a bruma
dos becos infestados,
sorveste toda espuma
dos lábios fermentados.

Não há surpresa, em suma,
dos marginalizados
és mais do que mais uma
que dança nos dois lados...
São sugestões de sintonias cúmplices, 
pois que antes fossem melodias íntegras 
do que esta dose de opióides súbitos, 
do que este roxo sobre veias práticas... 
Se trazem chances ao pior dos tímidos, 
que se acovarda ante a grande dúvida, 
tão logo o traem em promessas sórdidas 
de mais futuros promissores débitos... 
Adeus e adeus – multicurvas pétalas, 
adeus e adeus – desamores clássicos... 
As seduções dos limiares tácitos, 
quer sejam banhos de suaves ósculos, 
quer sejam fogos de artifícios fálicos, 
quer sejam loas de tristezas múltiplas – 
as seduções dos afluentes trágicos 
que escorrem longas melodias úmidas, 
que antes fossem solidões implícitas 
do que este surto de segundos zéfiros... 
São elegidas entre as horas ápices 
as horas cruas de certezas nítidas, 
as horas frias de rosáceas góticas, 
as horas cheias de princípios lógicos, 
são prometidas aos febris neófitos 
e ensejadas por incautos Sísifos, 
são destiladas em modorras íntimas 
e morrem salvas de abalos sísmicos...
Essa lua que já foi dita antes
e essa tarde dos antigos recitais
e essa fumaça impregnada nos cabelos,
nas cores e nas palavras de todos esses
velhos livros que têm tanta serventia –
como a vida tem deixado em olhos cínicos
a marca da esperança hereditária,
como é firme a pele branca do alabastro
que espera por seu cítrico perfume,
como são tristes os espelhos nítidos
e que preguiça nesse sábado enorme,
para quem os sonetinhos de amor
são garantia de entretenimento,
enquanto danço pra chover vem o domingo...
Eu não posso consentir naturalmente
que outro verbo se introduza neste trânsito –
fico truncado e repetindo mantras
aquém da lógica e do alcance de um dardo,
porque não tenho olhos para encarar
mais um verão sabor de envelhecer...

                                            ...om eim saraswatiyei swaha
                                                  om eim saraswatiyei swaha
                                              om eim saraswatiyei swaha...
É impossível ser um poeta
impassível?
É impassível ser um poeta
e impossível.
Querido Doutor
receite-me agora
uma via expressa
para tombar
sem passaporte

Querido Doutor
o quão contundente
será a demora
daquela pessoa
a Morte?

Serei despejado
da realidade?
..............................................
Por que eu já sinto saudade?

O Próprio


o homem imã psicoativo
radiofônico e bélico
deus do telefone mudo
comparsa da exigência
o homem-meta aquele
antítese da antítese da antítese
primeiro parágrafo de um plágio
ou o próprio – este ser
que até daria
um belo par de botas

“A Garagem Hermética”

Enquanto por veredas futuristas
eu me caçava a curto e longo prazo,
em frente das mortalhas imprevistas
daquelas pretensões de lago raso

Mergulhei – metal cru na areia púrpura...
Tomei do trem final o risco e a chama,
mantive a desgraçada compostura
cuspindo culpa e tédio e ouro e lama...

Porém até nas práticas cavernas
o sonho de chegar me acontecia
e o rito de passagem era tal

que a porta intransponível quase abria...
Não fossem essas terras sempiternas
no fim de cada quadro natural...

Berenice

Noite baixa na Rua Sá Carneiro.
Quando eu tragava a minha esquisitice,
corri os olhos e vi... de algum desfiladeiro
chegava Berenice...

O jeans cor de mate, os cabelos pretos,
seus peitos baluartes tonteantes,
seus brincos – aqueles prediletos
que ninguém viu antes...

E me dizia: “fala aí, magrinho!
Que horas são? Que dia é hoje? E de qual mês?”
Eu lhe sorria como um filhotinho...
“Fevereiro – quarta-feira – 10 pras 6.”

Que prazer em sua boca perfumosa!
Embora em tantas outras bocas desperdice
igual prazer de um roxo quase rosa...
Teus lábios, Berenice...

Noite alta... e ainda o mesmo faço...
Cismo na morte... decido ter um gato;
aquele deus remanescente do cansaço...
E, de pronto, ponho o nome de Pacato!...

BANG!..............................
Num segundo a rua toda era só luz!
Como prevendo o lamaçal de sangue,
da janela dona Inês beijava a cruz...

“Esse é o castigo! Vai tarde! Foi o vício!”
Juízes tolos mugiam a quem ouvisse...
Fui dormir lembrando teu ofício –
“té logo, Berenice.”

O amante herege

Castelã dos meus punhais,
onde tens que mendigar
nestas tardes literais?
Castelã, por quanto mais

hoje evitas acordar
a dor que dorme em tua paz?
E retorno a ser teu mar,
num silêncio de amputar...

Ah! provável castelã,
quando foste bailarina
frente às pálpebras de Pã?

Quando assim tão pequenina
escapaste entre a neblina
para ter com teu Satã?...

É teu

Qual foi o erro,
qual é o preço
que eu devo saber?

Não é certo
que eu peça perdão
sem me arrepender...

E se teu silêncio
for tua melhor
solução

Entenda o meu
como qualquer aceno
em vão