A minha alma serena,
é uma noite de agosto...

E de manhã no amarelo
vou vingar orvalho...

Ilustração infantil dos anos 50

Um sapo de fraque
bebendo conhaque.

Se essa rua...

Aquela rua sem fones de ouvido é uma infinda sucessão de passos em preto e branco, mas lá uma vez ou outra se encontra um pássaro todo metido distribuindo pios a deus dará.

Fauna e flora

Outro dia declarei ao meu amor:
"Eu te amo como a abelha ama a flor!"
Ela viu tanta beleza...
Eu vi tanta natureza...

Mas, Inocência,
se ela tivesse ciência
deste universo frágil
descobriria meu plágio...
Silêncio interno.
Outono estende sua cama de palha...

Nostálgico

Eu quero um canto
para descansar
fazer macarronada
com salsicha e ver
na Sessão da Tarde
a Lagoa Azul
inédito que nunca
passou na TV

Imagens em verde

Os grilos saltaram no pântano,
os sapos coaxaram de espanto...

No rapto das esmeraldas, tácitas
as ladras serpentes se esgueiravam...

O musgo musga alegre e esplêndido
naquele muro sábio e barbado...

As górgonas dançam emblemáticas
de olhos fechados no salão de espelhos...


Átomo

Deixe-me só.
Que só eu fique...
Uma só nota,
um só repique...
Um poeta morto no caminho...
Crianças brincam em ciranda,
coroam sua fronte com louros
recortes de jornais e revistas...



a gente queria conquistar o mundo
queria a gente
queria o mundo

Não sei. Vender poemas me lembra
o açougue do seu Onofre,
ele sempre sorri simpaticíssimo
com as mãos embebidas em sangue.


Introspectivo

Não te vejo, não me vês... é provável,
talvez me tenham como narcisista,
indubitavelmente impenetrável,
chupando cigarrinhos de intimista.

A solidão se torna indispensável,
mas longe de ser tola ou derrotista,
o tédio, igualmente detestável,
preenche meu desterro pessimista...

Cativo da rotina, residente
da soma do que é velho e displicente,
não sei há quanto tempo vivo a esmo.

Os livros que não li são companhia,
meus discos de obscura nostalgia -
são temas do deserto de mim mesmo...

No trem

Teus olhos, senhora - que arrepio!
Teus gestos de velha - que destreza
ao passar a página - ah, beleza!
Fico a te fitar, assim, sombrio...

Fernando Pessoa com sua Mensagem
nas tuas delicadas mãos sem viço,
parece que vejo - era miragem?
Fico a te fitar, assim, mortiço...

Teus olhos, senhora - dois acoites!
Quem me dera vê-los pelas noites
dentro do vazio... pouco importa

o que eu quero... foste embora, tchau!
Quem sabe hoje já não estás bem morta
sem chegar do livro a outro final?

Nuvem

Acordo cansado
e nesse cansaço
em que me condenso
encontro-me estado
de vago compasso
e fico suspenso

no sonho que todo
sufoca-me mudo
o corpo sem massa
e o súbito lodo
expele-me tudo
sou nuvem que passa

já nada me espanta
na minha garganta
ressoa um som rouco
por tua beleza
inútil tristeza
decreto - estou louco

e fico mais velho
eu fumo e espero
num banco de praça
mas vejo teu rosto
que lindo seu rosto
na nuvem que passa
O que há de espetáculo num dia de outono em um ano vil? Se do receptáculo algum ser de carne se evadiu, e, embora ainda disforme arraste as asas da sua conduta, crendo tornar-se verme mais óbvio que um filho da puta, desenlaça, para lá da casa dos vinte, alguma soma nos poucos anos de pedinte.