Introspectivo

Não te vejo, não me vês... é provável,
talvez me tenham como narcisista,
indubitavelmente impenetrável,
chupando cigarrinhos de intimista.

A solidão se torna indispensável,
mas longe de ser tola ou derrotista,
o tédio, igualmente detestável,
preenche meu desterro pessimista...

Cativo da rotina, residente
da soma do que é velho e displicente,
não sei há quanto tempo vivo a esmo.

Os livros que não li são companhia,
meus discos de obscura nostalgia -
são temas do deserto de mim mesmo...

No trem

Teus olhos, senhora - que arrepio!
Teus gestos de velha - que destreza
ao passar a página - ah, beleza!
Fico a te fitar, assim, sombrio...

Fernando Pessoa com sua Mensagem
nas tuas delicadas mãos sem viço,
parece que vejo - era miragem?
Fico a te fitar, assim, mortiço...

Teus olhos, senhora - dois acoites!
Quem me dera vê-los pelas noites
dentro do vazio... pouco importa

o que eu quero... foste embora, tchau!
Quem sabe hoje já não estás bem morta
sem chegar do livro a outro final?