Carta I

Antes da palavra não dita, restrita tantas vezes por timidez ou covardia. Antes da lembrança predileta, do mérito incerto. Antes do teu perfume único - exílio embriagador dos teus cabelos limpos. Antes de nascer o dia e da força que impulsiona os corpos ocos e cansados de si mesmos. E aqueles braços que abarcam algum profético desfecho...
Antes de chegar a tarde dolorosamente com a conversa sadia sobre o que foi escrito pelo século passado. Meio cigarro no cinzeiro, o café fresco, os olhares que roubam um do outro o que sabemos que não nos pertence. A mesa com talheres simples e pratos vazios...
Antes de cair o fruto da conquista, da gênese cítrica ao fim amargo. 
Porque não é nem mesmo a palavra ou o silêncio mais duro. Nem as mágoas passageiras, nem as cicatrizes que abrem e fecham feito janelas sem cortina, vendaval...
Porque antes de tudo, meu grande amor, eu era.

Cena Pavunense

No terminal rodoviário uma possível esquizofrênica comia um podrão e bebia guaraná. A cada mordida seus olhos ardiam brasas irreconhecíveis e sua boca abria saída para os mais finos palavrões fragmentados. Tomei nota de algumas novas obscenidades. Contrariado atirei metade do cigarro para não perder o 497 Bom Pastor. Logo chovia. Entrei desajeitadamente ávido. Duas estudantes apontavam lascivas e riam daquela talvez loucura, faziam caretas estúpidas, sofriam de um deboche infantiloide, o que também não é vergonha para seu ninguém, convenhamos. Ao lado, com a testa franzida em clara desaprovação moral, uma gorda embrulhada num vestido vermelho suava em bicas, vez em quando me encarava e balançava a cabeça em uma negação silenciosa, mas eu só pensava em Ki-Suco de morango.
Sentei do lado esquerdo, sozinho. Comi duas bananadas de 50 cents. Porque o mundo, meu amor, não sabe ser justo. Mas não é caso para entrar em parafuso ou ter um ataque de melancolia.
As árvores estendem
seus longos dedos magros
seguidos de braços hirtos.

As árvores me parecem telas
do mais profundo
desespero dos vencidos...

Quando penso no amor que idolatro
vem a dúvida do que é a idolatria,
se te adoro como um simulacro,
se te odeio quanto mais se distancia...

É coragem por à prova o contrato
ou tem força a evolução da covardia,
se te amar descubro hoje ser um fato,
se amanhã o mesmo fato assim seria...


Os velhos versos
nada de novo,
a mesma casca
do mesmo ovo...

As vacas magras
que ainda pastam,
onde os milagres?
nem eles bastam...

Os mesmos muros
fronteiras nuas,
as mesmas dores
as mesmas ruas...

Deitado no campo de papoulas

O cavaleiro entrega sua cabeça
que trêmulas mãos de castelã abarcam

há silêncio

o tempo julga e decreta

o coração espera novas freguesias
para o comércio de outra miséria itinerante

o grande Mistério é a adoração
pela ciência da primogênita Virtude...

Deste quintal de putas velhas erguem-se
muralhas farpadas por pseudodiamantes
e trepadeiras sem flores...

eu sou

A janela escancarada me entornou
na boca do espectro que me habita...


No fim da rua a tua casa morre
e dormes tão vazia do meu amor,
minha Ofélia melada de obscuros
tristes versos que componho sem pensar...

Consciência e autocrítica

Sobram-me reticências e vírgulas...
Meu vocabulário é uma vaca carnívora.
À primeira vista minhas ideias são asas,
à segunda são rasas,
à terceira são casas
nas esquinas das fórmulas comprometidas com o uso
do desuso...
Há profundeza nos olhos de quem vê?
No fim
eu sou você,
e vamos mal...

Não entendemos isso de ser poeta profissional.

3 Notas

I
Quando estou atrasado a rua se renova, nem o sol brilha a mesma tela, aracnídeo. Até o cigarro fumado no caminho empresta um gosto nítido de deboche e despreocupação.
II
O grande motivo da minha falta de pontualidade é o orgulho. O que pensariam de mim se me vissem, esbaforido, correndo léguas para pegar o trem?
III
Se me demoro 5 minutos a mais na cama, minha rotina é varrida por um tornado, meus compromissos esmagados por um piano, minha cara é detonada por uma banana de dinamite.

Teto preto

Afasto as cortinas
cúmplices da luz
e dançarinas das sombras...
Amigo mais próximo, quem és tu?
Deito no tapete verde,
braços em cruz,
logo tudo se perde...
Jesus!

Arauto inútil, quem és tu?
O espelho encarcera a imagem que aceita
mas seu rosto quadrado não se sujeita...

No chão a chuva de ontem tremeluz
o espírito de um velho vulto desconhecido -
óculos e dentes e sulcos e os
braços magros dependurados -

Sou o espantalho na colheita das horas...

1
Os dias tristes nascem
do marulho dentro das conchas -
a pretensão de um oceano grandioso
dentro de uma frágil porcelana oca...

2
Os dias tristes estão
para o suicídio
como a Quinta da Boa Vista
está para o cuspe e o mijo...

3
Minha última refeição
quero comê-la no arrojo
de uma transubstanciação
de toda matéria em Miojo...

4
Os dias não chegam tristes,
vão pouco a pouco emurchecendo.
Quando sentimos um calafrio
sabemos, está acontecendo...

5
Não te guardo mágoa alguma,
não és capaz de me ferir
com sua queixa que exuma
minha pouca vontade de rir...

6
Os dias tristes são como sonhos,
como sonhos mal concebidos,
vêm assombrar-nos, enfadonhos,
como filhos mal concebidos...

7
Há quanta mudança nas horas?
a tristeza não dura um minuto...
Enquanto florescem amoras
estrelas estão de luto....

A cela

Desenho sol e nuvens nas paredes úmidas, redefino ideias de júbilo. Fantásticos sons exteriores me fazem perceber todo meu estado equívoco. Enfio o fuço entre as grades, penso socorro e sonho. Tenho paciência. Súbito, rompo com todas as meditações, sobretudo com as que inspiram esperança: esse caminho, esse trilho, essa melodia cínica antes do fim da peça. E que fim? Logo principia outra sentença irrefutável.

Fumo. Tenho na sombra um adversário,
desfiro baforadas e provoco-o...
Estou louco? meu deus! que grande claviculário
oco... oco... oco... oco... oco... oco...
Todo poema é inútil

todo poeta é um mala
entre os males mais raros

Todo poema tem sido inútil?

alarde de sinos
faróis de carros


No trem

Ela folheava sensualmente aquele livro. Tinha uma cara de espanto e graça, suas sobrancelhas exclamavam uma muda interjeição. O título de um sarcasmo fodido: "Ser Homem", sem aspas...
De repente inclino a cabeça obtusa
e, pálido à beça, jorro indômitos...
e meus músculos moles e brancos
pasmam numa nitidez profusa...

O tempo seco acampou em minha voz
uma trupe de ciganos catarrentos...

O Puro

Na altura de Pilares entra no vagão um sujeito composto de cigarro e cana.


Belford Roxo

... faz calor de manhã em Belford Roxo,
quarta estranha e sem luz, o sol vem coxo
remando atrás das nuvens que grisalhas 
são para o grande azul como mortalhas...

As conduções são quartos ambulantes
repletas de envolvidos em sudários,
o asfalto todo falho de alarmantes
indícios dos descasos partidários...

No mais, há de haver vida na baixada,
embora mais distante, aturdida
mulher abandonada pobre e grávida,

que tendo a humanidade esmagada,
na lida de ser só encontra alento
e faz da própria dor alumbramento.
Engraçado recorrer ao assunto da morte,
quando até no meu nome há o deboche da vida.

Partícula

Minha alma é todo
esse vilipêndio,
dentro em instantes:
Incêndio!
Os sorrisos que se dissolvem nas bocas murchas
dessas velhas roucas de Marlboro -

Agora um par de centavos
que espremes tranquilamente

Dois olhos pouca bosta
cor de água suja

Agora um par de qualquer coisa
rolando ladeira abaixo

Dois olhos engavetados
impostos e metidos

 

As irmãs do mal

Maria Esfaqueia -
olhos fundos vampirescos,
janelas para o jardim,
Jardim de Arabescos...

Sensualíssima boca aberta
que morde para dentro, vilã
viúva negra e deserta
triste manhã...

Margarida Estripa,
mãos libidinosas mariposas,
coxas esquálidas, pálidas...
peitos de isopor...

Súcubo em primavera,
afluente e furor
de dependência química,
reincidência brutal e cínica.

Spleens batidos

1
É
de manhã
de manhã de manhã de manhã...

2
O poeta inventor
contraventor
do horror
da rima

que estima!

3
um verme atônito
que serpenteia num balde

4
Chega mais
me enxuga
os olhos,
me aluga
os ouvidos,
me decepa
as mãos...