O Puro

Na altura de Pilares entra no vagão um sujeito composto de cigarro e cana.


Belford Roxo

... faz calor de manhã em Belford Roxo,
quarta estranha e sem luz, o sol vem coxo
remando atrás das nuvens que grisalhas 
são para o grande azul como mortalhas...

As conduções são quartos ambulantes
repletas de envolvidos em sudários,
o asfalto todo falho de alarmantes
indícios dos descasos partidários...

No mais, há de haver vida na baixada,
embora mais distante, aturdida
mulher abandonada pobre e grávida,

que tendo a humanidade esmagada,
na lida de ser só encontra alento
e faz da própria dor alumbramento.
Engraçado recorrer ao assunto da morte,
quando até no meu nome há o deboche da vida.

Partícula

Minha alma é todo
esse vilipêndio,
dentro em instantes:
Incêndio!
Os sorrisos que se dissolvem nas bocas murchas
dessas velhas roucas de Marlboro -

Agora um par de centavos
que espremes tranquilamente

Dois olhos pouca bosta
cor de água suja

Agora um par de qualquer coisa
rolando ladeira abaixo

Dois olhos engavetados
impostos e metidos

 

As irmãs do mal

Maria Esfaqueia -
olhos fundos vampirescos,
janelas para o jardim,
Jardim de Arabescos...

Sensualíssima boca aberta
que morde para dentro, vilã
viúva negra e deserta
triste manhã...

Margarida Estripa,
mãos libidinosas mariposas,
coxas esquálidas, pálidas...
peitos de isopor...

Súcubo em primavera,
afluente e furor
de dependência química,
reincidência brutal e cínica.

Spleens batidos

1
É
de manhã
de manhã de manhã de manhã...

2
O poeta inventor
contraventor
do horror
da rima

que estima!

3
um verme atônito
que serpenteia num balde

4
Chega mais
me enxuga
os olhos,
me aluga
os ouvidos,
me decepa
as mãos...