27 de fev de 2016

O Puro

Na altura de Pilares entra no vagão um sujeito composto de cigarro e cana.


Belford Roxo

... faz calor de manhã em Belford Roxo,
quarta estranha e sem luz, o sol vem coxo
remando atrás das nuvens que grisalhas 
são para o grande azul como mortalhas...

As conduções são quartos ambulantes
repletas de envolvidos em sudários,
o asfalto todo falho de alarmantes
indícios dos descasos partidários...

No mais, há de haver vida na baixada,
embora mais distante, aturdida
mulher abandonada pobre e grávida,

que tendo a humanidade esmagada,
na lida de ser só encontra alento
e faz da própria dor alumbramento.
Engraçado recorrer ao assunto da morte,
quando até no meu nome há o deboche da vida.

Partícula

Minha alma é todo
esse vilipêndio,
dentro em instantes:
Incêndio!
Os sorrisos que se dissolvem nas bocas murchas
dessas velhas roucas de Marlboro -

18 de fev de 2016

Agora um par de centavos
que espremes tranquilamente

Dois olhos pouca bosta
cor de água suja

Agora um par de qualquer coisa
rolando ladeira abaixo

Dois olhos engavetados
impostos e metidos

 

As irmãs do mal

Maria Esfaqueia -
olhos fundos vampirescos,
janelas para o jardim,
Jardim de Arabescos...

Sensualíssima boca aberta
que morde para dentro, vilã
viúva negra e deserta
triste manhã...

Margarida Estripa,
mãos libidinosas mariposas,
coxas esquálidas, pálidas...
peitos de isopor...

Súcubo em primavera,
afluente e furor
de dependência química,
reincidência brutal e cínica.