Cena Pavunense

No terminal rodoviário uma possível esquizofrênica comia um podrão e bebia guaraná. A cada mordida seus olhos ardiam brasas irreconhecíveis e sua boca abria saída para os mais finos palavrões fragmentados. Tomei nota de algumas novas obscenidades. Contrariado atirei metade do cigarro para não perder o 497 Bom Pastor. Logo chovia. Entrei desajeitadamente ávido. Duas estudantes apontavam lascivas e riam daquela talvez loucura, faziam caretas estúpidas, sofriam de um deboche infantiloide, o que também não é vergonha para seu ninguém, convenhamos. Ao lado, com a testa franzida em clara desaprovação moral, uma gorda embrulhada num vestido vermelho suava em bicas, vez em quando me encarava e balançava a cabeça em uma negação silenciosa, mas eu só pensava em Ki-Suco de morango.
Sentei do lado esquerdo, sozinho. Comi duas bananadas de 50 cents. Porque o mundo, meu amor, não sabe ser justo. Mas não é caso para entrar em parafuso ou ter um ataque de melancolia.
As árvores estendem
seus longos dedos magros
seguidos de braços hirtos.

As árvores me parecem telas
do mais profundo
desespero dos vencidos...